Depois de três posts recomendando eventos culturais na UFRJ, este é diferente. A idéia surgiu por acaso: por que não entrevistar um ex-aluno da ECO que está no mercado? Daí chegamos a Carlos Alexandre Monteiro: repórter do Séries Etc, site com cerca de 150 mil visitantes por dia. Também é famoso entre cerca de 4 mil pessoas que visitam diariamente seu blog Lost in Lost dedicado ao seriado Lost. CA, como é conhecido, fala de suas experiências no mercado e dá conselhos valiosos a quem pretende trabalhar com jornalismo digital. Fale do seu histórico profissional. Onde você começou?
Eu me formei em 98, fiz o 1º estágio no último período da faculdade, na TV Globo. Passei no programa Estagiar e trabalhei com esportes. Terminei em agosto. Depois fui chamado para cobrir esportes na TV Globo. Um ex-chefe da Globo, em 99, queria cobrir o Pan-Americano de Winnipeg. Fui chamado para ser repórter do COB em Winnipeg. Voltando do Canadá, fui pra Globo de novo. Fiz contrato fixo de 1 ano pro Núcleo Olímpico, cobrindo as Olimpíadas de Sydney no Brasil. Depois dei um tempo pra outra carreira, trabalhando com música até 2005.
No começo de 2005 voltei pro mercado, trabalhei na produção do programa Supersurf feito pela produtora do meu ex-chefe. Fiquei um ano viajando, cobrindo campeonatos, etc. Depois da temporada de campeonatos, entrei de férias e o SporTV não renovou com a produtora. Mandei currículo pra Globo, visando a área de esportes. Quando fiz a entrevista, o editor-executivo do Globo Esporte disse: “Queria ver sua escrita, sacar seu estilo”. Então eu disse: “Olha, minha escola é de telejornal, não tenho muita coisa publicada”. Na época eu fazia a coluna “Diário da Escotilha” no Dude, We Are Lost [blog sobre o seriado Lost], que surgiu da comunidade Lost Brasil no Orkut. No mesmo dia, recebi o telefonema da Claudia Croitor, amiga do Luiz Henrique Romanholli. Eu ia fazer ‘frila’ na Copa do Mundo [de 2006], mas aconteceu que a Claudia tinha a vaga em aberto pro Séries Etc. Como já tinha trabalhado com esporte, sei a pauleira que é uma cobertura desse tipo. Então fiz a entrevista com ela, disse meu primeiro alvo seria o Séries Etc. por ser um assunto que eu gosto e mais leve que o esporte. Acabei contratado.
Então você não chegou a trabalhar com mídia impressa?
Nessa época de Winnipeg eu fiz textos de assessoria para o COB. E era comum ver as matérias copiadas por outros repórteres sem dar crédito...
No período de telejornalismo, você trabalhava em frente às câmeras?
Não, fazia produção e redação de texto. No máximo, gravei offs. Não fotografo muito bem. (risos)
Como é um dia de trabalho seu?
Chego às duas da tarde e tento correr atrás do que a Claudia pediu. Correr atrás das notícias nos sites internacionais, elaborar pautas, fazer as matérias. Bolar listas, galerias de sites, enquetes. Tudo aquilo que você vê no site [Séries Etc] é feito por quatro pessoas, Claudia, Flávia, eu, e a estagiária. Quatro pessoas correndo atrás de notícias.
O site tem um olhar brasileiro pras séries, e isso é interessante.
Sim, buscamos intreseções que nos tornem mais próximos das séries. Quando acontece um fato como a entrada do Rodirgo Santoro em Lost, do Bruno Campos em Nip/Tuck ou as filmagens de CSI Miami no Rio, nós ficamos felizes por fazer coisas diferentes, sempre buscando as notícias de interesse para o nosso público. Falamos das séries e episódios que passam aqui, mas não ficamos alheios ao que acontece no mundo. Por exemplo, séries mega-baixadas como Heroes e Lost, nós não podemos deixar de dar. Estamos atentos à realidade dos downloads, mas tendo o cuidado para não estragar a surpresa de ninguém.
Teve aquela polêmica com a morte do personagem do Santoro em Lost...
Sim, mas foi o que a Claudia disse na época: era um fato de interesse mesmo pra quem não via a série. Além disso, o próprio Rodrigo Santoro contou que seu personagem ia morrer na entrevista à revista Rolling Stone Brasil. E o conteúdo dessa entrevista vazou pra web antes mesmo de ser publicada.
Vocês tem reunião de pauta formal? Uma vez por semana?
Estamos tentando implementar isso, até pra poder planejar melhor as coisas do fim de semana. Nem sempre tem alguém no plantão do Séries Etc. no fim de semana. Nesse período de plantão aos sábados e domingos, ficamos responsáveis pela home de Entretenimento, do Globo.com, que tem link pro Ego, sites de vídeos, novelas. Durante a semana a dedicação é exclusiva ao Séries etc.
As pessoas acham que por ser um tema leve, é fácil de fazer.
Nada! É uma ralação. Não é glamourizado, não vamos toda hora pra Los Angeles. O texto pro Séries Etc. não é fácil de escrever, são muitas informações, tem que apurar, saber o que vai virar matéria, escolher fotos pras galerias, listas, criar as enquetes.
Não acontece o favoritismo de pautar as séries preferidas dos editores/redatores?
Não. A Claudia adora Veronica Mars, mas sabe que é uma série de pouco alcance aqui no Brasil, passa sábado à tarde! Eu adoro What About Brian, mas quase ninguém vê. Por sorte, algumas séries que eu, a Claudia e a Flávia gostamos estão entre as mais vistas pelo público, como Lost, E.R., Heroes, 24 Horas e Grey’s Anatomy.
E para falar das séries que você não gosta ou não conhece?
Aí eu peço socorro a outras pessoas da área, colegas do Globo.com perguntando, por exemplo, quem vê One Tree Hill? Quem é o personagem tal? Tudo isso pra fazer uma matéria melhor e expandir nosso olhar, não ficar só nas séries que a gente gosta. Sem contar que é impossível acompanhar todas as séries no ar atualmente.
Já aconteceu de matérias de vocês aparecem em outros lugares sem crédito?
Já, e não temos como controlar, se a gente for perder tempo procurando isso... Mas a Claudia já encontrou e acionou o Departamento Jurídico da Globo.com, os nossos superiores.
Conte da sua vivência na ECO. Como o que você aprendeu lá te ajudou no mercado?
O interessante da ECO são as discussões teóricas. Não sei como está agora, mas na minha época era muito precário em termos de matérias práticas, a gente tinha que revelar as fotos em laboratório particular.
Continua a mesma coisa...
Pois é. Por isso, o interessante da escola é despertar o interesse pra questões éticas e teóricas, é mais um centro de formação de comunicólogos, porque o jornalismo se aprende no dia-a-dia, na pauleira. A faculdade é necessária porque faz as pessoas pensarem em certos aspectos. Comparo a uma auto-escola, que você faz pra pegar a habilitação, a carteirinha do Detran. Mas dirigir na rua é outra situação. Você está sozinho, tem que se virar e aprender. Na ECO eu fiz Jornal Laboratório, fiz fanzine, trabalhei em rádio universitária. Mas só no dia-a-dia você vê a pauleira, é responsável pelos seus textos, sofre as conseqüências se algo errado for pro ar.
Quais são, de acordo com sua opinião e a sua vivência, as diferenças entre escrever para TV e pra web?
O grande diferencial da TV – e isso é até meio óbvio – está no que você vê. É um texto que não existe sem a imagem. E o texto de web é interessante, particularmente no Séries Etc., porque te dá uma liberdade muito grande de brincar com a linguagem. Tem um coloquialismo, é mais informal. Tem também a necessidade de fazer textos curtos, objetivos, atraentes e inserir tudo no contexto de hipertexto. Isso eu aprendi na prática: se tá falando de uma matéria, tem que ter link pro texto do dia anterior. Por exemplo: “Lembra quando falamos do cancelamento da série tal? Os produtores repensaram...”
Como é trabalhar com o aspecto multimídia da web?
É necessário demais usar a multimídia. Trabalhar só com texto na web não dá. Em um meio que tem tantos outros caminhos, é tiro no pé. Estamos falando de Web 2.0, Fotolog, comentários do leitor, as possibilidades são tão evidentes.... É muito legal trabalhar com isso, bem diferente do que eu fazia no telejornalismo.
Como é fazer jornalismo cultural nesse meio novo, que é a web?
Não é muito diferente. O assunto com que trabalhamos [séries de TV] é mais leve, abre mais possibilidades. Ninguém vê painel de fotos sobre a bolsa de valores. Trabalhar com um assunto lúdico num meio que dá várias possibilidades de aproveitamento é estar com a faca e o queijo na mão, dá um casamento bacana.
Algum conselho que você daria aos futuros jornalistas interessados em trabalhar com webjornalismo?
Naveguem muito! Fiquem atentos às novidades da Internet, como Fotolog, Flickr... Não pode ter preconceito do tipo “Eu não faço fotolog”. Tem que se inteirar sobre o que significa, saber o que é aquilo. E não deixe de ler nunca. O que tem de gente que não sabe usar o vocabulário na nossa área... Adquira cultura, esse é um conselho que dou pra qualquer pessoa. Conhecer de música do Pixinguinha até o Chemical Brothers. Ver filmes do Tarantino, Truffaut e Ivan Cardoso. A Internet se baseia nessas referências do universo pop. Também é preciso ter agilidade, adestrar sua mente para aprender a olhar hipertextualmente, criar os links. Tudo isso num nível de usuário, mas com interesse além do usuário comum.
Foto: Arquivo pessoal do CA






